Fenda dos Desesperados

Álbum.

Fenda dos Desesperados

Single Image

SpotifyList.

Letras.

Ver o Peso

Um homem de rua na feira de Belém
Cheiro o cheiro verde, almoço de quem não tem
A mão invisível do mercado é de quem pede uns trocados
O corpo invisível ignorado da menina a preço barato

Qual o sentido do cheiro do invisível social?
Qual o peso, ver o peso, de uma marginal?

Mercado que vende tudo não vende justiça social
Procuro uma garrafada pra curar a banalidade do mal
Mercado que vende tudo não vende justiça social
Procuro uma garrafada pra curar a banalidade do mal

E o que você espera do mercado global?

Vende-se tudo no mercado do Pará
Comidas, curas, castanhas, seduções e blá-blá-blá
Os batedores de carteira também estão por lá
Um home grande com o seu pitbull a amedrontar

Tudo é tão desigual, tudo é tão natural
Há quem compre, há quem venda ou se venda, tudo é tão banal

Mercado que vende tudo não vende justiça social
Procuro uma garrafada pra curar a banalidade do mal
Mercado que vende tudo não vende justiça social
Procuro uma garrafada pra curar a banalidade do mal

E o que você espera do mercado global?

Profana Maré

Nós, os que vivem nas margens das margens profanas da maré
Nós, os artistas de todos os lares, pilares in cité
Os que fazem a grama pra suncê não se aborrecer

Tu, que alimenta a criança com uma distância, medo cru
E tu, que queimou o vermelho enquanto ele dormia um sono grey
Que não faz a grama pra suncê não se aborrecer
Que não faz a grama pra suncê não se aborrecer

Fecha a cara ao ver que seu vazio se esvaziou, se esvaziou
Que toda a orla se empreteceu
Que a pobreza se emputeceu

Que a pobreza se emputeceu!

Samba Torto

Deus que me defenda dessa gente insana
Que teme uma a outra
Deus que me defenda dessa carne pura
Que açoita com brilho nos olhos

Eu que me refaço
Quando vejo a Frida Kahlo estampada em camiseta
Lá no raio que o parta
Eu que não me meto com o Manoel de Barros
Leve como passarinho lá nas águas centro-oestes

Quem abriu a fenda pros desesperados
Foi quem fechou a porta pro inesperado
Quem calou me disse é que se comeu, é que se comeu
E nesse samba torto algo se entristeceu

Eu que me refaço
Quando vejo a Frida Kahlo estampada em camiseta
Lá no raio que o parta
Eu que não me meto com o Manoel de Barros
Leve como passarinho lá nas águas centro-oestes

Quem abriu a fenda pros desesperados
Foi quem fechou a porta pro inesperado
Quem calou me disse é que se comeu, é que se comeu
E nesse samba torto algo se entristeceu

Confetes & Derrotas

O caminho das pedras, norte e sul
E os loucos perdidos, Sol e pó
As mulheres nas ruas sem saber
Se é cobiça ou fome, tanto faz

As canções sobre a morte ou a TV
Dilaceram os caminhos sem fim
Anunciam confetes e derrotas
Satisfazem as bocas ansiosas

Pátria amada, os filhos que morrem
E todos só querem ver gol, e todos só querem ver gol
Pátria amada, os filhos que morrem
E todos só querem ver gol, e todos só querem ver gol

Negra Consciência

Qual a cor da humanidade em séculos de escravidão nessa nação?
Abolição de papel, que amassa, rasga, queima, se desfaz sem ter lugar
Liberdade sem reparação, segregação camuflada
Deixai fazer, deixai passar
Vidas entre latifúndios, vidas favelizadas
Deixai servir, ou deixei morrer

Quase quatro séculos de desumana exploração, foram 388 anos de escravidão. Uma abolição sem reparação. Nada! Eles disseram liberdade, mas qual o lugar do negro nessa sociedade? Nos campos resistimos como comunidades, quilombos. Sempre cercados de cercas latifundiárias. Desde 1850 a Lei de Terras definiu que só se tem terra comprando, a forma de dizer que nenhuma terra teriam os pretos, que produziram toda riqueza deste país por mais de três séculos. Com suor e sangue! Veio a república, no nome a promessa: coisa pública. Mas os negros não eram o público, eram a platéia que assistia a república dos imigrantes europeus trazidos para trabalhar. Quem que ia contratar preto ex escravizado? Nem no campo nem na cidade. Favelidade. E assim foi durante toda a “era Vargas”, a política de branquear a população: Eugenia. Foi preciso um hotel em São Paulo barrar a afro-americana katherine Dunham para a lei Afonso Arinos proibir a discriminação racial. Ninguém foi condenado em anos. 1950 irmão. Há leis nesse país que não pegam, mas o racismo pega, e mata! Anos depois, 1964, Ditadura Militar, todo preto que denunciava a falsa democracia racial era chamado de comunista. Comunista! E vocês até hoje caem nessa pilha. Quando chega a redemocratização já eram 100 anos sem reparação. Silêncio! Silêncio estatal total. E vocês compartilhando o vídeo do Morgan Freeman como grande novidade e solução. O silenciamento sobre o racismo sempre foi a regra. Resistiremos. Continentes negros!

Consciência negra, consciência desigual
Consciência que não há, não há democracia racial.

Cúmplice-Algoz

Acordar, levantar, tudo ao redor tem um preço
Comprar é a sina do ser atual
Trabalhar para ser mais um, se submeter
E rotinizar sem pensar

Entre tantos que tontos vão a lugar nenhum
Que movem a engrenagem: Miragem real
Ou ser descartado, produto humano inválido
Se não consumir, gastar, se endividar

Certos de que somos servos cegos
Que creem num mundo artificial
Nossas casas são celas, as correntes moedas
Queremos mais delas pra nos libertar

E até nossos sonhos, dos que ainda sonham
É de se distinguir e deixar os demais
Desiguais
Mas não basta talento, se é lento o lucro
Se te vendem mais caro no mercado sexual

E um de nós denuncia, a hipocrisia
Dos que tornam tudo mercadoria
E a plateia consumista, que é consumida
Cúmplice do seu algoz

Eles vendem os protestos
Como alívio cômico, no drama da vida real
E destinam as revoltas, às prateleiras
E aos programas de TV

E um de nós denuncia, a hipocrisia
Dos que tornam tudo mercadoria
E a plateia consumista, que é consumida
Cúmplice do seu algoz

Fio Condutor

Vejo um fio condutor de adversidade
Vejo a bala que matou nossa mobilidade
Vejo fulano correr, o beltrano a trabalhar
O sicrano a morrer, e o dono a se lixar

Gilberto freyre falou que nós somos 3 em 1
Sérgio buarque explicou: Cordial como ninguém

Cidadão a agradecer liberdade por vintém
Se gritar, tu vai morrer
Espingarda aqui não falta pra ninguém, não falta pra ninguém

Eu só quero é ver o gol
Na copa logo que vem
Eu não entendo a fome aí
O Brasil cresce custa de quem? De quem?

Prece

Nunca cedeu seus olhares ao azul cintilante de um único céu
Terra tão seca de angústia premiada com sangue e "democracia"

Não existem fronteiras
Deformações insurgentes
Respiram e lutam a soberania assaltada

Em preces

Certos de um mundo absurdo
Derramado em concreto e enclausurado

Os pratos sobre a mesa
Olhos arregalados
Tarrafas vazias

Sem mais fronteiras
Deformações insurgentes
Respiram e lutam a soberania assaltada

Em preces

Ele Não

Derrubem aquele ódio antes do amanhã, já deu
Mataram novas peles, cerraram outros olhos
Protejam nossas fomes, preces contra os vermes, fariseus

Negaram nossa noite, queimaram nossas cores
Como os nazi fez com os judeus
Como os nazi fez com os judeus

Derrubem a gravidade branca que nos deu um nó
Sangraram as veias abertas dos filhos daqui
Descanse atrás do muro que o amor vem acolá
Rebelde como o vento e terno feito uma eterna mãe
Feito uma eterna mãe. Uma eterna mãe

Nos quatro cantos vejo um ele não, ele não, ele nunca, não!
Os nascimentos chegam pelo ele não, ele não, ele nunca, não
Nos quatro cantos vejo um ele não, ele não
Avermelhados seremos sempre

Ele não, ele não, ele nunca, não
Avermelhados seremos sempre

Vídeo.

Resenha.

O álbum Fenda dos Desesperados conta com nove faixas, assinadas pela produção musical da KM4 Produções, de Ruan Cruz, e traz canções que versam sobre temas e questões historicamente entrelaçadas aos dilemas do povo brasileiro como racismo, homofobia, machismo, desigualdades e injustiças sociais etc.

“Fenda dos Desesperados” é uma expressão que, do ponto de vista de seus integrantes, representa a abertura no tecido social das relações pelo qual aqueles que, historicamente colocados às margens da sociedade, se rebelarão contra esse domínio.

Com participações de Débora Melo, Regiane Araújo, Emanuele Paz, Milla Camões e Vinaa, o álbum marca a atual fase da banda, que é marcada por dialogar com diferentes vertentes musicais que constroem um estilo próprio.

As principais influências da banda passam pela MPB (de Zeca Baleiro e Lenine), pelo rock internacional (de Red Hot Chilli Peppers e Dream Theater), pelo blues (de Nina Simone e Jimi Hendrix), pelo reggae (de Bob Marley) pela música contemporânea brasileira (O Rappa, Criolo, BaianaSystem, As Bahias e a Cozinha Mineira etc), entre tantos outros estilos.

(por Gustavo Sampaio - SobreOTatame - em 19/09/2019)